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terça-feira, 20 de julho de 2010

O poder da religião na esfera pública

Em "O Poder da Religião na Esfera Pública", Judith Butler, Jürgen Habermas, Charles Taylor e Cornel West interrogam sobre a especificidade da religião e da razão secular, disposições e orientações éticas em relação às políticas democráticas, cada um tomando uma vertente diferente do complexo entrelaçamento entre religião e esfera pública no mundo contemporâneo.













Os ensaios que compõem esse volume incluem "The Political: The Rational Meaning of a Questionable Inheritance of Political Theology" (O Político: O significado racional de uma herança questionável de Teologia Política) de Habermas; "Why We Need a Radical Redefinition of Secularism" (Por que precisamos de uma definição radical de secularismo) escrito por Taylor; "Is Judaism Zionism?" (É o judaísmo um zionismo?) por Butler e "Prophetic Religion and the Future of Capitalism Civilization" (Religião profética e o futuro da civilização capitalista) escrito por West. Cada capítulo foi originalmente apresentado como uma fala em um recente simpósio co-patrocinado pelo SSRC, o Institute for Public Knowledge na NYU, e o Humanities Institute  do Stony Brook. Os materiais relacionados a esse evento, incluindo gravações em áudio e transcrições dos painéis, estão disponíveis aqui.

"O poder da Religião na Esfera Pública", com edição e introdução de Jonathan VanAntwerpen e Eduardo Mendieta, com pósfácio de Craig Calhoun, está disponível pela Columbia University Press e SSRC

Retirado daqui, com tradução própria.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"Caim" - novo livro de José Saramago




O caderno Prosa & Verso, do jornal O Globo, deste sábado trazia os comentários sobre o novo livro de Saramago, “Caim”- aquele do mais famoso fratricídio da humanidade. Juan Arias escreve o artigo. Ele que é, inclusive, autor de um livro sobre o Nobel português – “José Saramago – o amor possível” -, além de “A Bíblia e seus segredos” e “Jesus, esse grande desconhecido”.

Comenta Arias que “mais do que a história romanceada de Caim, o escritor aborda em seu livro o absurdo de um deus – sempre registrado com minúscula, por Saramago – que na Bíblia aparece mais cruel e caprichoso que o pior dos homens.”
Ainda segundo Arias, “em todo o texto, no qual Caim é protagonista e narrador das atrocidades do deus bíblico, o irmão de Abel não nega seu crime e aceita sua vida errante como uma espécie de castigo. Não aceita, contudo, ser mais criminoso e cruel que deus. Se ele matou seu irmão – segundo Saramago, na realidade, ele queria matar deus – esse deus cometeu muito mais crimes que ele... A dialética de Caim com deus é impecável: se eu pequei, tu pecaste mais. Se eu matei meu irmão, tu mataste, ou mandaste matar a muitos mais”.
O último parágrafo da análise de Arias é bastante interessante. Escreve ele: “Para Saramago, deus não é mais que um pretexto para que as religiões possam melhor escravizar a consciência humana. Com ‘Caim’, ele trata de deitar, literariamente, sobre o tapete do mundo, esta crua realidade. Ao mesmo tempo, e apesar do seu ateísmo, devemos a ele uma das definições mais poéticas da divindade: ‘Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio’, afirmou ele em certa ocasião. Afinal, deus não é para ele tão indiferente como possa parecer. ‘Caim’, definitivamente, é também um grito contra todos os deuses falsos e ditadores criados para amordaçar o homem, impedindo-o de viver, em total liberdade, sua vida e seu destino”.
Ao lado do artigo sobre o livro, há uma pequena entrevista com o próprio Saramago. Gostaria de citar três das questões feitas, bem como as fortes respostas.
JORNAL: “O Caim que o senhor constrói é a voz da razão, da clareza de raciocínio, mostrando um Deus tão tirano e incompreensível que torna qualquer crença patética. Qual sua intenção ao escrever o livro?”
SARAMAGO: “No fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas tenho que dizê-las”
JORNAL: “Outros ateus convictos, como Richard Dawkins e Christopher Hitchens vêm dedicando seu tempo a uma cruzada antirreligiosa. Como vê esse movimento?”
SARAMAGO: “Por mim, não o faria. É praticamente impossível convencer alguém a virar as costas às suas crenças. Limito-me a escrever o que penso do assunto e deixo aos leitores a inteira liberdade de fazer o que entendam. O único que peço para mim é respeito”
JORNAL: “O senhor acredita que ainda é possível a existência de um mundo sem religião? O pessimismo de Caim em relação à Humanidade é também o seu?”
SARAMAGO: “Penso que não merecemos a vida, penso que as religiões foram e continuam a ser instrumentos de domínio e morte. Em suma, Caim teve razão para tentar impedir que outra humanidade substituísse a que teria morrido no dilúvio. Afinal, se a primeira era má, esta é péssima...”

 Entrevista retirada do blog do Ricardo - Spinoza e amigos.




Agora algumas considerações sobre as perguntas. Enquanto Saramago, como bom membro do Partido Comunista, diz que todas as religiões são nocivas à humanidade, eu partilho o ponto de vista de Michel Onfray e restrinjo o caráter nocivo apenas às religiões do eixo judaico-cristão por todos os motivos que vocês, caros leitores, ja devem estar carecas de saber: poder, manipulação, ilusão,distorção, oportunismo de inocências etc. Em relação à última resposta de Saramago, a de que não merecemos a vida, tenho duas objeções. A primeira é sobre a relevância da afirmação, penso ser irrelevante se merecemos ou não a vida, o fato é que a temos e, uma vez nesta condição, temos que fazer o melhor possível dela, com o que temos em mãos. A segunda é em relação às implicações: a afirmação de que não merecemos a vida me soa um tanto quanto metafísica. Falar em merecimento da vida automaticamente me traz a noção de alguma coisa que nos foi dada, neste caso, a vida só pode ter sido dada se admitirmos a existência de um ser superior, responsável pela vida, que nos deu algo que não merecemos. Caso não exista deus algum, a vida que temos não pode ser medida em termos de merecimento. Não sei se me fiz claro.

De qualquer modo, coloco o livro na minha lista de "a serem lidos" e prometo colocar minhas impressões aqui.


quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Felicidade e trabalho



Hoje vou postar algo sobre um autor contemporâneo que eu gosto bastante. Alain de Botton, autor de "Arquitetura da felicidade", "Consolações da filosofia" entre outros. Todos destinados a amplo público e com uma linguagem acessível.

Em seu mais novo trabalho, "Os prazeres e desprazeres do trabalho", Alain afirma que desprazeres e desilusões são inevitáveis no trabalho e que a busca incessante por realização plena aumenta a sensação de infelicidade constante. Faz muito sentido em um mundo em que realização passou a ser "ter" algo, produzir algo. E a busca incessante pela imortalidade, por deixar uma marca neste mundo que seja inesquecível por gerações, continua. Esse medo do vazio assombra...

Reproduzo aqui uma entrevista com Alain publicada na Folha de hoje.

FOLHA - Que importância tem o dinheiro na felicidade no trabalho?
ALAIN DE BOTTON
- Dinheiro é uma forma de amor. Não adianta alguém dizer "gosto muito de você". Apenas quando você ouve "ok, vou lhe pagar 1 milhão de libras" você sente que é necessário. É difícil compreender que você é importante quando é mal pago, mesmo se disserem que você é ótimo.
FOLHA - Felicidade e trabalho podem conviver?
DE BOTTON
- A pergunta é se amor e trabalho podem estar juntos. Minha resposta é: sim, na teoria. Existem pessoas que são felizes no emprego, mas são uma minoria. Não há razão, em tese, para que você seja infeliz no trabalho, mas há várias, na prática, para que a vida no escritório seja difícil. Se o cara que senta ao seu lado é um idiota, você vai odiar o trabalho, por melhor que ele seja. É impossível passar pela vida profissional sem pelo menos uma série de insatisfações, questionamentos e crises.
FOLHA - Desde o começo de 2008, 23 funcionários da France Telecon (empresa de telefonia francesa) se suicidaram. O que pensa disso?
DE BOTTON
- O capitalismo moderno sugere que os seres humanos são apenas commodities, mercadorias que se pega e pelas quais se paga um preço. Mas há uma grande diferença entre pessoas e algodão ou petróleo. As pessoas podem cometer suicídio. Você contrata uma pessoa inteira, não apenas um cérebro ou um braço. Isso precisa ser reconhecido pelos capitalistas.


Ao som de: It Could be Sweet - Portishead

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Questões morais

Baseado no texto anterior, levanto aqui algumas reflexões acerca da moral e da natureza de nosso sentido de moral:

  • Na história da evolução das espécies, qual o papel da moral e sua importância na preservação da espécie humana?
  • Há propriedades universais para nossas valorações morais, fazendo assim sentido falarmos em uma "gramática moral"? (Algo parecido com o que Noam Chomsky afirma sobre a gramática)
  • Quais são as causas de nossas variações morais culturais?
  • Até que ponto nosso senso moral depende do domínio de ponderações específicas e imediatas?
  • Que limitações ocorrem na criança ao esta adquirir a capacidade moral?
  • Os psicopatas possuem um déficit na moral ou déficit em unir conhecimento moral com os comportamentos moralmente apropriados?

Questões retiradas do site de Harvard, do departamento de Damásio.

O Erro de Descartes

Ooolá, vamos a mais um livro, desta vez indico "O erro de Descartes" de Antônio Damásio, neurologista português, atualmente professor em Harvard. Aos meus alunos que já estudaram Descartes, fica a questão: qual foi o erro de Descartes?







Penso, logo existo. Esta afirmação, talvez a mais famosa da história da filosofia, ilustra exatamente o oposto do que o autor deste livro propõe e desenvolve em suas páginas. A frase de Descartes sugere que pensar e ter consciência de pensar definem o ser humano. E como sabemos que o filósofo francês concebia o ato de pensar como uma atividade separada do corpo, sua definição estabelece um abismo entre mente e corpo. Para contestar Descartes - e todas as consequências dualistas de sua afirmação - Antônio Damásio não recorre a filigranas escolásticas ou sutilezas metafísicas, mas ao seu conhecimento de pacientes neurológicos afetados por danos cerebrais.

Tais estudos abrem as portas para a investigação de um campo quase inexplorado pela ciência: as relações entre razão e sentimento, emoções e comportamento social. Na visão de Damásio, sentimentos e emoções são uma percepção direta de nossos estados corporais e constituem um elo essencial entre o corpo e a consciência. Em suma, uma pessoa incapaz de sentir pode até ter o conhecimento racional de alguma coisa, mas será incapaz de tomar decisões com base nessa racionalidade.

Ao tirar o espírito de seu pedestal e colocá-lo dentro de um organismo que possui cérebro e corpo totalmente integrados, o autor sublinha a complexidade, a finitude e a singularidade que caracterizam o ser humano. Reconhecer a origem humilde e a vulnerabilidade do espírito e, ao mesmo tempo, continuar a recorrer à sua orientação é tarefa difícil, mas indispensável. o ponto de partida da ciência e da filosofia deve ser anticartesiano: existo (e sinto), logo penso.

Texto retirado da orelha do livro.

E então, curiosos leitores, encontraram o erro de Descartes? Onde fica o racionalismo, a independência do funcionamento racional, de nossa res cogitans, sem nosso corpo, a res extensa (como dizia o professor de física baiano) como regulador e nosso cérebro funcionando em todas as suas estruturas?

Indico enfaticamente a leitura deste livro para que se possa compreender um campo de trabalho recente na filosofia e na neurologia, que acabam refletindo na psicologia: a distinção corpo/mente, uma possível estrutura cerebral fixa que nos leva aos sentimentos, o sentimento como ferramenta evolutiva. Nesse caso é curioso tratar como ferramenta para a sobrevivência aquilo que sempre tratamos como o de mais sublime que existe no humano: os sentimentos.

Ao som de: Unnatural Selection - Muse