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quinta-feira, 17 de junho de 2010

A importância do tédio em nossas vidas


Porque eu devolvi o meu iPad
por Peter Bregman (link)
Pouco mais de uma semana após comprar o meu iPad, eu o devolvi para a Apple. Mesmo tendo algumas falhas, o problema não estava exatamente no iPad. O problema estava em mim.
Eu gosto de tecnologia, mas eu não sou uma pessoa que compra sempre a primeira versão, o quanto antes, de novos aparelhos e gadgets, eu espero as novas versões para que sejam corrigidas as possíveis falhas de projeto que possam ter passado despercebidas. Eu esperei pelo iPod de segunda geração, esperei pelo iPhone de segunda geração e esperei pelo Macbook Air de segunda geração.
Mas o iPad é diferente. Tão elegante, tão legal, tão transformador… E, eu pensei, se ele é tão similar ao iPhone, a maioria das possíveis falhas de projeto que poderiam vir a existir já deveriam estar corrigidas.
Assim, pela primeira vez na minha vida, me encontrei esperando por duas horas em uma fila na frente da loja da Apple para adquirir o meu iPad 3G, bem no meio da tarde do dia do seu lançamento.
Fiz as configurações iniciais do aparelho na própria loja da Apple porque eu queria ter certeza que eu já poderia começar a usá-lo no momento em que eu o comprasse. E eu o usei bastante. O levava para qualquer lugar que eu fosse. Tão pequeno, tão leve, por que não trazê-lo junto comigo?
Nele eu acessava o meu e-mail, escrevia artigos utilizando o aplicativo Pages, assistia a episódios da série Weeds no Netflix, lia notícias, verificava as condições e previsões climáticas, verificava o estado do tráfego, etc. É claro que eu mostrava orgulhosamente a minha nova aquisição a quem demonstrava um mínimo de interesse. (Isso por si só poderia gerar um novo texto. Eu mostrava o iPad 3G para qualquer um simplesmente por possuí-lo, como se fosse uma conquista. Por quê? Eu não criei o iPad, eu simplesmente comprei um!)
Não demorou muito para que eu me deparasse com o lado negro desse revolucionário aparelho: ele é de fato maravilhoso.
É tudo muito fácil, muito acessível, é rápido, a sua bateria dura muito. Claro que há alguns problemas, mas nada que chame muito a atenção. Na maior parte do tempo, eu conseguia fazer tudo o que eu queria e foi justamente isso que acabou se mostrando um grande problema.
É claro que eu quero assistir a um episódio de Weeds antes de ir dormir. Mas será que eu deveria? É realmente difícil de parar tendo visto apenas um episódio, e duas horas depois, me pego entretido, mas bem cansado. Mas será que eu estou mesmo melhor assim? Ou será que eu estaria melhor tendo sete horas de sono ao invés de apenas cinco?
A grande sacada do iPad é que ele é uma espécie de computador acessível em qualquer lugar, a qualquer hora. No metrô, no hall do elevador esperando o dito-cujo chegar, no taxi indo para o aeroporto, etc. Qualquer momento se torna um momento em potencial para se usar o iPad. O iPhone consegue fazer as mesmas coisas, mas não da mesma forma. Quem que quer ver um filme naquela telinha pequena do iPhone?
Então, por que o iPad se mostrou um problema? Do jeito que eu falo ele parece super produtivo. De fato é, pois a cada minuto extra eu me encontrava produzindo ou consumindo.
Mas algo – mais do que apenas a quantidade de horas que eu durmo, apesar de isso também ser crítico – foi perdido no tempo. Algo valioso demais para se perder.
Tédio.
Ficar entediado é uma coisa muito importante, um estado de espírito que devemos buscar. Uma vez que ficamos entediados, a nossa mente começa a vagar, buscando alguma coisa excitante, alguma coisa interessante para se estabelecer. E é justamente aí que a criatividade aparece.
As minhas melhores idéias vêm à mim quando eu não estou produzindo nada:
  • Quando eu estou correndo, mas não estou ouvindo nada no meu iPod;
  • Quando eu estou sentado, sem fazer nada, apenas esperando por alguém;
  • Quando estou deitado na minha cama esperando que o sono venha;
Esses momentos “perdidos” são vitais.
Existem momentos em que nós, mesmo inconscientemente, organizamos as nossas mentes, colocamos sentido nas nossas vidas e ligamos os pontos. Existem momentos ainda em que falamos com nós mesmos e outros que ouvimos. Perder esses momentos, substituí-los com tarefas e eficiência, é um erro. O pior de tudo é que nós não apenas os perdemos, nós os jogamos fora.
“Mas isso não é um problema com o iPad”, falou o meu irmão Anthony – ao qual sou compelido a mencionar que está produzindo um filme chamado “Meu Irmão Idiota”. “Isso é um problema seu. Você tem apenas que não usá-lo tanto!”
Sim, culpado. O problema estava comigo. Eu não consigo simplesmente não usá-lo. E, infelizmente, ele está sempre ali, disponível! E, depois de ponderar, eu resolvi devolvê-lo. Pronto, problema resolvido.
Essa experiência foi bem proveitosa para me ensinar o real valor do tédio. Agora eu estou bem mais consciente, de forma a utilizar melhor esses momentos extras para deixar a minha mente fluir em idéias e pensamentos.
Mais ou menos na mesma época que eu devolvi o meu iPad, percebi que a minha filha de oito anos, Isabelle, estava inacreditavelmente ocupada do momento que ela chegava da escola até a hora que ela ia para a cama. Tomar banho, leitura, treino de violão, jantar, dever de casa, ela não parava um momento até eu lhe falar para ir dormir. Uma vez na cama, ela tentava falar comigo, mas eu, preocupado com o pouco sono que ela poderia ter, apressava esse momento e a impelia a dormir logo.
Agora nós temos um novo ritual, um que tem se tornado a minha parte favorita do dia. Eu a tenho colocado para dormir 15 minutos mais cedo do que eu a colocava antes. Ela deita na cama, eu deito do lado dela e nós simplesmente conversamos. Ela fala sobre as coisas que aconteceram durante o seu dia, sobre coisas que a preocupam, coisas que ela está curiosa ou apenas sobre os seus pensamentos. Eu a ouço e faço perguntas. Nós rimos, e as nossas mentes simplesmente divagam…
Retirado de www.produzindo.net
Para ler ouvindo: Muse- Sing for Absolution

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Os fantasmas da perfeição

Vivemos em tempos de crise. A humanidade é uma espécie, como todas, adaptada a um meio ambiente quase sempre hostil: sofrimentos, violência, morte. Habitamos, entretanto, um tipo de meio ambiente distinto das demais espécies: o espaço interior, a alma, a mente, o espírito. Vivemos expectativas, fracassos, inquietações, e a consciência da dor. Os últimos séculos estabeleceram formas novas desses velhos dramas: sonhos políticos, técnicos, científicos, psicológicos e morais, todos marcados pela tentativa de interromper um destino infeliz aparentemente inexorável. Por isso, a crise atual tem marcas específicas: uma delas é sua relação direta com os processos utópicos modernos.

Quando falamos em utopias pensamos imediatamente nos grandes modelos políticos criados a partir da obra de Jean Jacques Rousseau (século 18): revolução social, política e econômica. Todavia, a ideia de utopia é mais antiga e remonta aos renascentistas e à filosofia humanista: o homem é dono de sua vida e pode fazer com ela o que quiser. O sonho da vida perfeita, desde então, virou um fantasma: para chegar à felicidade, basta descobrir as fórmulas. Será? Pode o homem tornar-se perfeito? Tem ele a capacidade de construir um projeto perfeito de futuro? Sua natureza detém os recursos necessários para realizar este projeto? Pode o homem tornar-se pleno? Neste cenário, a modernidade tornou-se o grande produto dos processos utópicos: economia científica, políticas da liberdade e da justiça social, autonomia dos sujeitos.

Normalmente identificamos a “morte das utopias” como a queda do muro de Berlim em 1989: a morte da justiça social plena. Em 2008, outra imagem surgirá no cenário mundial como exemplo de “morte das utopias”: a crise da sociedade baseada no consumo e no mercado como fim de uma história que teria encontrado seu modelo último de aperfeiçoamento no capitalismo pleno.

Mas as utopias só não construíram fantasmas coletivos. Outros fantasmas, com nomes próprios, vieram à noite visitar os sonhos e pesadelos dos indivíduos em suas pequenas vidas comuns. E o que faz o indivíduo sozinho, à noite, no seu quarto, diante desses fantasmas? Para além dos grandes processos políticos e sociais, o que significou, em nosso cotidiano, vivermos sob a tutela de um projeto de perfeição? Como cada um de nós, na solidão da vida e de suas pequenas decisões que formam a malha quase invisível em que respiramos, viveu esta obsessão pela vida perfeita? Utopias da personalidade, da sexualidade, do amor, da liberdade, do conhecimento, varreram nossas vidas. Talvez a cura passe pelo enfrentamento da imperfeição e do conflito como universo último da vida. Seríamos, afinal, uma pequena alma que sabe mais do que deve, mas nunca tudo o que precisa? Enfim, teríamos diante de nós o risco de sermos um ser sem sentido último e sem certezas? Seria esta uma forma mais livre de viver? A imperfeição como horizonte?

Texto sobre palestra de Luís Felipe Pondé no Café Filosófico

Ao som de: Radiohead - 15 Step